jeudi 1 septembre 2016

L'amour on the road


O amor na estrada tem manias engraçadas.
Como o revezamento de mamilos ao pobre coitado que pega a direção e tem as mãos ocupadas. Às vezes com a saliva seca e pura, outras com o gosto de cigarro, mas também acontece com a calda de morango do açaí de sete reais, já quase atropelando um burrinho serelepe solto durante nossas lambanças de mucosas.
O chacoalhar nos estacionamentos universitários e as dores nas juntas dos agachamentos contínuos em posições pitorescas, como conclusão inesperada, gastam os amortecedores nas quicadas pulsantes prensadas a frio - como o suor - de nervosismo tesalucinante nos dias quentes das tardes sem fim.
De putaria clássica, a rápida punheta despretenciosa que surpreendentemente (ninguém esperava!) vira uma sucção demorada e ansiosa entre passadas de marcha na BR 101.
Nas paradas necessárias, rápidas inserções manuais em canais vaginas e esfíncteres. Com areia quando necessário pela textura tesão-contínuo nas paredes vascularizadas.
Mucosa com mucosa se encontram rapidamente em momentos de tensão e demoradamente quando relaxadas. Como quando goza-se entre chupadas na sala de estar de um amigo que gentilmente cede a casa para forasteiros despreocupados.
Dos flagras existenciais apenas o momento de nudez-encaixe e entre-dedadas-matinais num quarto emprestado; uma bunda de fora sem muito contexto aparente.
Sem perder o costume, a última aventura louco expositiva - até agora - foi numa amarração com canga de praia e uma gozada goela abaixo em uma trilha (quase que movimentada) prestes a terminar numa terça feira antes do deitar do sol.
Tudo isso para explicar que no tic tac das paixões ligeiras de um horizonte sem muitas perspectivas é nas sacanagens descoladas da realidade-moral-descrente-de-doçura que nasce a parte mais gostosa do amor viageiro: a aventura dos caminhos salivares, a lubrificação dos freios por corrimentos vaginais, os gemidos de nervosismo safo silenciados com cândida grosseria por dedos sujos de graxa, a masturbação embalada por entupimentos auto-motores e a queimação dos pneus abafando os cheiros genitais.
O amor na estrada tem manias engraçadas.

mardi 5 juillet 2016

Moisés


Queria contar pra vocês minha história com um rapaz chamado Moisés.
Moisés tem entre 20 e 21 anos. Ele deve ter 1,8m pra mais, é esbelto e bem bonito. Conheci Moisés no final do ano passado voltando a pé da UFRJ depois de ter bebido umas cervejas.
No nosso primeiro encontro Moisés puxou minha bolsa e em seguida me acertou um soco na cara. Nosso diálogo foi rápido e intenso:
"Não reage, não fala nada"
Enquanto corria eufórica atrás dele, desferi as palavras:
"Por que você tá fazendo isso?"
Nosso único diálogo.
Moisés morou na minha cabeça durante alguns dias. A sensação? Algo entre cuidado e angústia.
Moisés foi preso na mesma noite e eu precisei pegar minha bolsa e documentos na delegacia. Minha primeira noite de insônia pensando nele deu vida a uma cartinha que escrevi a mão.
Fortuitamente ou não essa carta nunca pôde ser entregue.
Tive, então, meu segundo encontro com Moisés em uma sala de reconhecimento. O medo de ser vista só era superado pelo desejo de entrecruzar as vistas. Nesse dia eu desabei.
Moisés sumiu de mim durante um tempo. As marcas do soco sumiram e a história se tornou engraçada.
Hoje, no entanto, tive meu terceiro encontro com Moisés. Um lugar de engravatados, rostos sérios e tristes. Uma oficial de justiça bateu minha porta e de súbito Moisés voltou como um sonho estranho.
Ao caminhar pelos corredores o coração palpitou. Estava eu decidindo a vida de Moisés? Eu, que bêbada, sozinha e de cara a tapa, que troquei seis palavras ao correr atrás de coisas e que perdi horas lembrando do seu rosto estava decidindo sua prisão ou liberdade?
Moisés não me deu só um soco como me puxou a orelha e talvez o pé. Moisés foi um lapso consciente que brotou no meu coração e me atordoou.
Mais uma vez numa sala de reconhecimento eu olhei pra Moisés e ele não me olhou. Mais uma vez eu revivi a sensação afobada de carinho versus angústia. Mais uma vez eu me coloquei contra a bondade que existe aqui dentro e escutei a voz do temido "tem que ser feito".
Algo em mim chora sem saber exatamente o porquê, algo em mim é apatia e algo em mim é dúvida. Me parece que vivi a despedida de Moisés e isso não me faz mais tranquila ou segura.


[Retrospectiva: Se apaixonar parece ser assaltada]

mercredi 22 juin 2016

Le féminin sacré


Aqui algumas reflexões sobre o "sagrado feminino".
Em algum momento li "Está a mulher para o homem assim como a natureza para a cultura?" de Sherry Ortner, onde ela que diz que enquanto o corpo biológico masculino é projetado para ele mesmo, o corpo biológico feminino é projetado para outro ser, para uma criança que está por vir, para a natureza. Os processos que vivemos relacionados ao útero são dolorosos e desgastantes durante a vida: a menstruação (pré, durante e pós), a gestação, parir, a lactação e a menopausa.
Existe aí, sim, algo que grita e que não é nosso. Como se o bom funcionamento do corpo fosse interrompido por uma doença súbita, algo que nos põe de cama, nos deixa com cólica, estressadas ou tristes. Esses processos acontecem quando adoecemos e muitas de nós passam por eles mensalmente - a interrupção do "correto" funcionamento corporal.
Não por esse "chamado da natureza", no entanto, que me parece correto crer que temos algo ~essencial~ que pessoas dotadas de um corpo biológico masculino não teriam. Entendo que certas vertentes filosóficas e religiosas entendem o "masculino" e o "feminino" não nas limitações que nossos processos culturais os encaixam, mas como forças opostas que se entrelaçam e se equilibram. Talvez nosso erro seja exatamente associar tão pura e cruamente aspectos tão complexos a corpos biológicos.
Homens com um instinto mais maternal do que mulheres, mulheres com uma competitividade mais acirrada que homens, homens que sofrem dores e fadigas constantes, mulheres que se sentem confortáveis com seus próprios corpos e atividades, homens que se sentem conectados com o todo, mulheres que se sentem descoladas desse mesmo todo. Somos múltiplos. Não é um "chamado da natureza", um sangramento mensal, que nos faz ter um tipo de psique ou uma tendência para tal mais inclinada. Não é não termos um útero que nos faz, também, desconexo dessa complexidade e conectividade que é a natureza, o corpo e quiçá um espírito.
Aprisionar questões tão amplas a fisiologias tão ridiculamente diferenciadas é limitar a explosão de saberes e intuições que cabem em um ser humano. Se a "força feminina" e a "força masculina" são usadas apenas como analogias (poderíamos dizer ying yang, etc) então é uma péssima analogia - por que não analisar, então, os extremos em si ao invés de compará-los à fisiologia? A generosidade e o egoísmo, a agilidade e a languidez e não associar à coisas materiais tais como um sistema reprodutor.
O discurso do sagrado feminino recoloca as pessoas dotadas de um corpo biológico feminino na posição de submissão (agora não só física e moral, mas também ~espiritual~, porque ~é seu papel~) e dessensibiliza as pessoas dotadas de um corpo biológico masculino, julgando-os incapazes de se conectarem com papéis que não estão associados à sua força viril, altiva, ágil e dominadora.
Vamos ter cuidado para não acharmos outras formas de limitarmos os seres humanos. Expandir e agregar é o caminho, não achar outras formas de nos podarmos.
Uma pequena observação: Esse processo não exclui espaços de encontro dos femininos. Espaços de troca, de sororidade, de amor, generosidade e, principalmente, ligado à feminilidade enquanto construção e não enquanto fisiologia. É só uma crítica ao "devir mulher" enquanto corpo biológico, não entendendo que vem da construção nossa identificação enquanto tais.

vendredi 25 mars 2016

Assaut


Se apaixonar parece ser assaltada.
Às vezes você sente que algo está por vir, ou até que já aconteceu. Eu chamo isso, particularmente, de estalo. Geralmente eu ignora o estalo mas ele grita fazendo um escândalo dentro do estômago - ah! e como grita.
Daí a abordagem: rápida, astuta, de surpresa. O coração palpita, as pupilas dobram de tamanho, os hormônios fogem pelos poros. Viro bicho.
O diálogo, essencial, calculado - não posso xingar, não posso me declarar, não posso correr, não posso te agarrar.
Te olho no olho, olho a boca, as mãos. Te leio cima abaixo. Quero segurar seus pulsos, te quero meio longe meio perto. Tenho medo de quanto está perto mas o longe continua sendo assustador.
Entrego tudo: a bolsa, o celular, o corpo, o coração. Entrego os beijos e a palpitação. O som.
Não me sinto obrigada, dou porque quero, podia não dar. Mas... e se não desse? Me arrependeria, sofreria, me safaria? Prefiro entregar tudo, mas já aconteceu de não o fazer.
Te tomo algo algo também - mas é óbvio! Te tiro a sanidade, te faço bicho, você tem medo também mas parece tão determinado. Quando hesita, minha brecha: te olho mais forte, te peço a identidade - que dor de cabeça fazer de novo a própria identidade!
Dois minutos, você me manda voltar, me manda esquecer sua cara ou simplesmente não fala mais nada. Talvez você olhe para trás (não sei, nunca olho) mas não faz mais diferença; o estrago foi feito, me levou tudo, a respiração começa a voltar ao normal.
Recuperar leva tempo: comprar uma nova bolsa, tirar um novo documento, o B.O. na delegacia, as noites que fico pensando em você, as marcas, o som da sua voz, suas mãos que arrancaram a minha roupa ou o meu colar.
Paro de pensar em você, recupero o que foi roubado, me preparo pro próximo assalto.

dimanche 17 janvier 2016

Rafael


Já meio atrasada parei no sinal. Impaciente.
Vi um homem, alto, usava uma bermuda e nenhuma camisa. Tava calor pra caralho. Pediu alguma coisa pra uma menina que tava esperando o sinal abrir. Depois de uma provável recusa ele se afastou e a menina foi pro meio da rua.
Ele continuou. Entrou em uma lanchonete e falou com outra mulher – depois de passar por uns dois homens que também estavam sentados no balcão. Falou alguma coisa, a mulher lhe deu uma nota de dois reais e mais algumas moedas. Ele parecia apontar pra uma lanchonete do outro lado da rua.
Atravessei quando o sinal fechou. Cheguei perto, ele nem percebeu.
“Ei, nego, vamo lá que eu te pago”
Toquei nele. A pele seca.
“Pô, brigadão”
Entramos numa lanchonete que tinham uns pratos feitos. Um chinês atendia. Em cima dele um cardápio com vários pratos, de R$15 a R$19.
“O que você quer?”
“Frango empanado”
Debrucei no balcão. Pedi um frango empanado pro chinês.
“Pode ser um guaraná também?”, ele pediu.
Não olhei pra ele. Pedi um guaraná pro chinês. Esperei. Olhei pra ele.
“Qual seu nome?”
“Rafael”
“Prazer, querido, sou Bia”
Encarei o chinês. “É débido”. “É de passar”.
Rafael olhava pra não sei onde. Talvez pra mim, talvez pro balcão, talvez pro chinês.
“Brigado, Bia”
Putz, lembrou meu nome.
Fala aí Rafael, que que tu tá fazendo aqui?
Ah é? Quantos anos você tem?
Eu chutaria uns 18, 19 no máximo.
Tu é bonito pra caralho, hein nego!
Ele sorriria. Provavelmente agradecia o elogio.
Fala aí meu irmão, quer dizer que você tá aqui por causa disso?
Eu sentaria do lado do Rafael.
Putz, eu perguntaria da vida toda do Rafael.
Fala aí, nego. Onde tu mora?
Que que tu gosta de fazer?
Seu nome é com “F” ou com “PH”. Ele responderia, riríamos disso.
Você gosta de futebol? Tu tem cara mesmo que é vascaíno – ou botafoguense, ou flamenguista, foda-se, ele teria cara de qualquer coisa que me respondesse. Eu zuaria, talvez. Nem ligo pra futebol, na real.
Mas, agora, fala pra mim. Se você tá aqui por causa disso, por que você não tá fazendo aquilo?
No domingo você gosta mais de curtir a praia ou de comprar umas cervejas e chamar a galera?
Me fala, Rafael, qual foi a última vez que você se apaixonou?
Você ainda gosta dela então.
Pô, mas vacilou né, irmão. Tu nunca podia ter feito isso.
Pode crer.
É, tem razão.
Ô, nego, tenho que ir, tem uma galera me esperando. Posso te dar um abraço?
Eu abraçaria Rafael até ele me soltar. Putz, com certeza.
“Se cuida, hein irmãozinho”
Sorri.
Ele sorriu de volta – dessa vez sem ser na minha imaginação.
Inspirei forte. Fui pro ponto de ônibus.
"Putz, nego, fica com deus", eu diria pro Rafael.